A inteligência artificial (IA) está prestes a redefinir o setor de utilities no Brasil. Nos próximos anos, avanços em machine learning e IA generativa prometem transformar operações, modelos de trabalho e processos decisórios, tornando-os mais ágeis, autônomos e resilientes. Este artigo explora como a IA vai impactar desde o monitoramento de ativos até a governança corporativa, destacando os desafios culturais e regulatórios que ainda precisam ser superados.
O setor de utilities já utiliza IA, mas a tendência é que sua aplicação deixe de ser pontual para se tornar uma camada central de inteligência corporativa. A tecnologia permitirá simulações em larga escala, previsão de demandas e respostas rápidas a intempéries, aumentando a eficiência operacional. Além disso, sistemas agênticos vão interagir diretamente com outros sistemas, automatizando decisões que antes dependiam exclusivamente da intervenção humana. Estima-se que até 2028, cerca de 15% das decisões corporativas sejam tomadas dessa forma, alterando profundamente a dinâmica do setor.
A adoção da IA também transformará o modelo de trabalho. Hoje, as empresas aplicam a tecnologia principalmente em análises pontuais, mas o futuro aponta para uma integração total em processos estratégicos. Essa mudança permitirá uma tomada de decisão mais autônoma, apoiada em dados organizados e em gêmeos digitais que simulam redes de transmissão e operação. A introdução de robótica avançada e sistemas autônomos nas operações físicas promete elevar a produtividade e reduzir erros, tornando o setor mais proativo do que reativo.
Apesar do potencial, os primeiros ganhos vêm de iniciativas práticas e bem estruturadas. O sucesso depende da organização de dados e da resolução de problemas operacionais específicos, capazes de gerar retorno financeiro imediato. A experiência mostra que muitas empresas ficam presas no “vale das provas de conceito”, com projetos que não se traduzem em economia ou eficiência reais. A chave está em implementar soluções “self-funding” que se paguem rapidamente, permitindo a expansão gradual da inteligência artificial no ambiente corporativo.
Outro fator crítico é a cultura organizacional. Muitas concessionárias de energia enfrentam dificuldades não por limitações tecnológicas, mas por barreiras internas e regulatórias. A falta de aculturamento técnico e o engajamento insuficiente da liderança podem comprometer a implementação efetiva da IA. Coordenar a inteligência artificial em uma companhia complexa é comparável a reformar um apartamento enquanto se mora nele: exige planejamento estratégico e comando executivo para garantir que mudanças nos processos realmente impactem os resultados.
Além disso, a regulamentação vigente ainda não favorece a aplicação ampla da IA no setor elétrico, o que exige debates com órgãos reguladores e ajustes nas políticas corporativas. A segurança também é uma preocupação constante, já que sistemas autônomos dependem de governança rigorosa para evitar vulnerabilidades em operações críticas. Portanto, a implementação da IA exige equilíbrio entre inovação tecnológica, organização interna e conformidade regulatória.
No curto prazo, áreas como atendimento ao cliente, embora já maduras em termos de chatbots, terão ganhos menores. O foco inicial deve ser a automação de processos internos, mapeamento de dados e uso estratégico de informações para otimizar transmissão, distribuição e manutenção de ativos. O engajamento dos colaboradores, muitas vezes familiarizados com linguagens de programação como Python, demonstra que há prontidão interna, mas cabe à liderança estruturar e direcionar essas iniciativas.
O cenário que se desenha mostra que o setor de utilities pode se tornar mais inteligente, eficiente e resiliente, com operações baseadas em dados e decisões autônomas. A evolução da IA não é apenas tecnológica, mas estratégica, exigindo que empresas alinhem inovação, cultura corporativa e regulamentação para maximizar os benefícios. As próximas transformações prometem redefinir a forma como energia e serviços essenciais são gerenciados, preparando o setor para os desafios do futuro de forma mais segura e sustentável.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
