A Transformação no Mercado de Tecnologia: Como a Escassez de Profissionais e a ‘Pejotização’ Estão Redefinindo o Setor

Leonid Stepanov
Leonid Stepanov

O mercado de tecnologia no Brasil tem enfrentado um cenário complexo e dinâmico, com desafios que vão desde a escassez de profissionais qualificados até a crescente informalidade no setor. Apesar de o número de cursos técnicos e de curta duração estar ajudando a reduzir a falta de mão de obra, vagas que exigem formação superior e um vínculo formal de emprego continuam sendo difíceis de preencher. Esse cenário reflete uma mudança no perfil do trabalhador e nas expectativas das empresas, que estão cada vez mais optando pela ‘pejotização’ como forma de contratação.

De acordo com dados da Brasscom, a projeção para 2025 é que o setor de tecnologia abra até 147 mil novas vagas formais, mas a maior parte dessas vagas está em áreas que exigem qualificação superior. A crescente falta de profissionais qualificados para essas posições tem gerado um descompasso entre a oferta e a demanda, o que torna o mercado ainda mais competitivo e instável. Além disso, a informalidade tem se expandido, com a contratação de microempreendedores individuais (MEIs) aumentando 18,2% entre 2022 e 2024, muito mais do que os contratos formais.

A ‘pejotização’, ou seja, a contratação de profissionais como pessoas jurídicas, tem sido uma tendência crescente nas empresas de tecnologia. Esse movimento reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho, onde a flexibilidade é mais valorizada por muitos profissionais, especialmente pelas novas gerações. No entanto, essa tendência também tem gerado desafios, uma vez que os custos de contratação com carteira assinada estão levando muitas empresas a buscar alternativas mais baratas e flexíveis, comprometendo o vínculo trabalhista formal.

Embora a situação tenha melhorado um pouco em relação ao passado, o setor ainda enfrenta uma lacuna significativa entre a demanda e a oferta de profissionais qualificados. A Brasscom aponta que, entre 2019 e 2023, o número de formados em cursos técnicos de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) cresceu 21,5%, enquanto o número de certificados em cursos de curta duração teve um impressionante aumento de 587,1%. Essas formações, mais rápidas e focadas em habilidades específicas, têm ajudado a suprir parte da demanda, mas ainda há um longo caminho a percorrer para garantir uma qualificação mais profunda e abrangente.

No entanto, o ensino superior tradicional tem se mostrado cada vez mais ineficaz para formar profissionais qualificados para o setor. Dados revelam que, em 2023, apenas 5% dos alunos matriculados em cursos superiores de TIC conseguiram se formar, o que evidencia a alta taxa de evasão. Muitos alunos abandonam a graduação antes de terminar, uma vez que conseguem ingressar no mercado de trabalho com uma formação básica. No entanto, essa qualificação limitada acaba gerando barreiras no desenvolvimento da carreira desses profissionais.

A evasão no ensino superior é um reflexo de uma desconexão entre o que é ensinado nas universidades e o que é exigido pelas empresas. Os cursos superiores de TIC, apesar de oferecerem uma formação teórica robusta, muitas vezes não conseguem acompanhar a rápida evolução do setor tecnológico e as demandas do mercado. Isso leva muitos alunos a optarem por cursos técnicos ou formações mais rápidas que, embora atendam a uma necessidade imediata, não proporcionam uma base sólida para o crescimento profissional no longo prazo.

Além das questões de formação e informalidade, o setor de tecnologia no Brasil também enfrenta desafios estruturais relacionados à diversidade. Os dados de 2023 mostram que, embora a participação das mulheres tenha aumentado ligeiramente, ainda são predominantemente os homens que dominam as formações em tecnologia. Além disso, a desigualdade racial é evidente, com uma grande disparidade entre o número de profissionais brancos e negros no setor. Esses fatores indicam que, além de melhorar a qualificação e reduzir a evasão, o setor de tecnologia também precisa enfrentar questões de inclusão e diversidade de forma mais efetiva.

O futuro do mercado de tecnologia no Brasil dependerá de como as empresas e as instituições educacionais lidarão com esses desafios. A tendência de ‘pejotização’, embora ofereça flexibilidade, também traz riscos, como a falta de estabilidade para os profissionais e a perda de direitos trabalhistas essenciais. Já a evasão e a desconexão entre o que é ensinado nas universidades e o que é exigido pelo mercado precisam ser abordadas de forma urgente para garantir a formação de profissionais preparados para as demandas do setor. Em suma, o Brasil precisa repensar sua abordagem educacional e trabalhista no setor de tecnologia para não apenas suprir a escassez de mão de obra, mas também para promover um ambiente de trabalho mais justo e equilibrado.

Para que o setor de tecnologia no Brasil continue a crescer de forma sustentável, é essencial que haja uma maior integração entre a educação técnica e superior, e que as empresas adotem práticas que incentivem a formação contínua de seus colaboradores. O equilíbrio entre flexibilidade e estabilidade, entre inovação e direitos trabalhistas, será crucial para garantir que o Brasil se mantenha competitivo no cenário global de tecnologia. Somente assim será possível garantir que as novas gerações de profissionais de tecnologia tenham as condições necessárias para prosperar nesse setor, enfrentando de frente os desafios impostos pela ‘pejotização’ e pela escassez de profissionais qualificados.

Autor: Leonid Stepanov

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