País já lidera a América Latina em infraestrutura digital e disputa espaço internacional impulsionado pela demanda crescente por inteligência artificial.
O Brasil se consolidou como o principal destino de investimentos em data centers na América Latina, e a expectativa para os próximos anos é de crescimento ainda mais acelerado. Segundo o relatório Global Data Center Outlook 2026, da consultoria JLL, a capacidade instalada mundial deve praticamente dobrar até 2030, saltando de 103 gigawatts para 200 gigawatts, impulsionada principalmente pela expansão da inteligência artificial. Nesse cenário, o país pode atrair cerca de US$ 33 bilhões em aportes, distribuídos entre construção civil, equipamentos e infraestrutura tecnológica. A pergunta que fica para quem acompanha esse movimento é o que, na prática, esse volume de investimento representa para a economia brasileira, para a geração de empregos e para a energia consumida por essas estruturas cada vez maiores.
Como o Brasil se tornou protagonista no mapa global de data centers
Atualmente, o Brasil ocupa a 12ª posição no ranking mundial de data centers, mas já é líder isolado na América Latina, concentrando cerca de metade do mercado da região, com aproximadamente 200 empreendimentos em operação, segundo dados do Ministério das Comunicações. As projeções indicam entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos, somados aos R$ 2 trilhões que o setor de tecnologia digital como um todo deve receber entre 2026 e 2029, conforme o Relatório Setorial 2025 da Brasscom. Desse total, os maiores volumes estão concentrados em computação em nuvem, com R$ 765,6 bilhões, e em inteligência artificial, com R$ 736,6 bilhões.
Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgado em julho pelo Instituto Livre Mercado, detalha o impacto de um único data center voltado à IA com 100 megawatts de capacidade: o investimento total gira em torno de R$ 25 bilhões e, durante os 18 a 36 meses de implantação, gera cerca de 12.560 empregos diretos e indiretos ao longo de toda a cadeia produtiva, incluindo construção civil, instalações elétricas e serviços de engenharia. A pesquisa também aponta que boa parte dos recursos aplicados em infraestrutura é absorvida pela economia doméstica, embora uma fatia relevante ainda dependa de equipamentos importados, como servidores e placas gráficas.
Os desafios que o país ainda precisa superar para consolidar essa posição
Apesar do potencial, o Brasil enfrenta obstáculos estruturais para transformar esse interesse internacional em capacidade instalada. Levantamentos citados pela Brazil Economy mostram que os data centers em operação no país atendem hoje apenas cerca de 40% da demanda nacional, o que faz com que aproximadamente 60% dos serviços digitais consumidos internamente ainda sejam processados no exterior. Essa dependência resultou em déficit bilionário na balança de serviços de telecomunicações e computação, segundo dados citados na justificativa do Projeto de Lei 278/2026, que tramita no Congresso.
A carga tributária também segue como ponto sensível. O ICMS representa cerca de 64% dos custos que encarecem projetos do setor, tornando a implantação de um data center no Brasil aproximadamente 34% mais cara do que nos Estados Unidos, de acordo com dados da Brasscom e da Teletime. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), criado pela Medida Provisória 1.318/25, previa incentivos fiscais importantes, mas perdeu validade em fevereiro de 2026 sem conversão em lei definitiva, o que levou estados a debaterem, no Confaz, uma proposta de convênio para reduzir em até 90% o ICMS sobre equipamentos destinados a esses empreendimentos.
Onde estão os novos polos de data center e por que a energia limpa pesa a favor do país
A vantagem competitiva do Brasil está diretamente ligada à sua matriz energética. Cerca de 88% da eletricidade gerada no país já vem de fontes renováveis, o que reduz a pressão sobre operadores globais que, em outros mercados, precisam investir pesado para compensar as emissões de suas operações. O prazo médio para obtenção de energia no Brasil, entre 1,5 e 2 anos, também é considerado mais competitivo do que em mercados onde essa conexão pode levar mais de quatro anos, segundo a JLL.
Embora São Paulo continue concentrando a maior parte dos projetos, em polos como Barueri, Alphaville e Campinas, outras regiões ganham força. Fortaleza se destaca por concentrar a ancoragem de 17 cabos submarinos, o que a coloca entre os principais pontos de conectividade internacional do país, enquanto o Ceará também recebe investimentos bilionários em energia renovável ligados a esses projetos, caso do complexo do Pecém. O Nordeste, aliás, vem sendo apontado por especialistas como a nova fronteira do setor, à medida que o eixo Sul-Sudeste enfrenta saturação e custo de terra mais elevado.
O movimento de expansão dos data centers no Brasil está diretamente ligado à forma como empresas e governos passaram a depender de inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais no dia a dia. À medida que essas estruturas físicas se espalham pelo país, elas carregam consigo geração de empregos, aumento de renda em regiões próximas aos projetos e uma disputa federativa por atrair investimentos por meio de incentivos fiscais. O desafio, daqui para frente, será equilibrar esse apetite internacional com a segurança jurídica e a previsibilidade tributária que o setor considera indispensáveis para transformar projetos anunciados em capacidade efetivamente instalada.
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