Criminosos usam deepfakes e dados pessoais reais para personalizar fraudes, enquanto prejuízos com Pix e boleto somam bilhões de reais no país.
Os golpes digitais no Brasil entraram em uma nova fase em 2026, muito por conta do uso cada vez mais sofisticado de inteligência artificial por parte de criminosos. Segundo a empresa de segurança digital ESET, o Pix segue no centro das estratégias de fraude financeira, aproveitando características como a transferência instantânea e a dificuldade de reversão das operações. Um levantamento da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP) estima que cerca de 28 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes via Pix em 2025, com pessoas acima de 50 anos representando 53% dos casos. A dúvida que fica para quem usa o sistema todos os dias é como reconhecer um golpe que, agora, já não tem mais os erros óbvios de português ou os textos genéricos de antigamente.
Como a inteligência artificial mudou a forma como os golpes são aplicados
O uso de inteligência artificial deixou os golpes mais rápidos de produzir e mais difíceis de identificar. Segundo a ESET, se antes os golpes eram genéricos, hoje são moldados em segundos para perfis específicos, incorporando dados reais da vítima, como nome e cidade, além de uma linguagem natural que soa coerente com o contexto de quem recebe a mensagem. Um estudo mais amplo sobre fraudes digitais no país aponta que o uso de deepfakes, imagens e vídeos falsos gerados por IA, cresceu 830% no Brasil em apenas um ano, enquanto os golpes aplicados por SMS aumentaram 14 vezes no mesmo período.
Esses conteúdos falsos já circulam simulando autoridades públicas anunciando supostas taxações ou mudanças no funcionamento do Pix, materiais que tendem a ficar ainda mais realistas conforme as ferramentas de IA generativa se tornam mais acessíveis. Um exemplo recente é o crescimento de golpes ligados à Copa do Mundo de 2026: um levantamento da NordVPN mostra que 34% dos internautas brasileiros relataram contato com fraudes relacionadas ao futebol entre 2024 e 2025, praticamente o dobro do registrado no ciclo da Copa anterior, impulsionado justamente pela velocidade com que ferramentas de IA permitem montar páginas falsas e campanhas de phishing em poucas horas.
O tamanho do prejuízo financeiro e quem são as maiores vítimas
Os números consolidados do setor de segurança digital mostram a dimensão do problema. Levantamentos citados por especialistas em fraudes indicam que o prejuízo total com golpes envolvendo Pix e boletos alcançou cerca de R$ 29 bilhões entre julho de 2024 e junho de 2025, com perda média de R$ 6.311 por vítima. No mesmo período, o país chegou a registrar milhares de tentativas de fraude por hora, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, do Instituto Datafolha e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Entre os tipos de golpe mais lucrativos para os criminosos estão o golpe do investimento, com perdas que variam entre R$ 15 mil e R$ 50 mil por vítima, e o golpe envolvendo contas de pessoa jurídica, entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Já entre os mais frequentes no dia a dia aparecem fraudes com cartão de crédito, Pix ou boleto falso e phishing. Um dado chama atenção especial: pessoas com 60 anos ou mais chegam a perder, em média, cinco vezes mais dinheiro do que jovens entre 18 e 29 anos, o que reforça a vulnerabilidade da população mais velha diante desse tipo de fraude cada vez mais elaborada.
O que autoridades e empresas de segurança recomendam para se proteger
Diante do avanço das fraudes, o Banco Central tem implementado e aperfeiçoado medidas de segurança ao longo dos últimos meses, embora especialistas reforcem que nenhuma solução tecnológica elimina totalmente o risco. A recomendação mais repetida por empresas de cibersegurança é desconfiar de mensagens que criam senso de urgência, mesmo quando parecem vir de bancos, marketplaces ou pessoas conhecidas, já que a IA tornou muito mais fácil imitar a linguagem e até a voz de terceiros.
As redes sociais seguem como principal porta de entrada para esse tipo de fraude, e o WhatsApp aparece como o canal mais utilizado para disseminação de golpes no Brasil, presente em quase 65% dos casos analisados em levantamentos recentes do setor. Especialistas recomendam validar qualquer solicitação de pagamento por outro canal antes de confirmar uma transferência, evitar clicar em links recebidos por mensagem sem verificar a origem e desconfiar de promoções, benefícios sociais ou recompensas que pedem pagamento antecipado via Pix, prática presente em boa parte das fraudes mapeadas neste ano.
O avanço da inteligência artificial aplicada a fraudes digitais mostra que a mesma tecnologia usada para facilitar tarefas do dia a dia também abriu novas portas para o crime organizado. Bancos, empresas de segurança e órgãos de defesa do consumidor têm reforçado o alerta, mas a responsabilidade final de checar antes de confirmar qualquer pagamento segue recaindo sobre o usuário. Compreender como esses golpes evoluíram nos últimos meses é o primeiro passo para não cair em armadilhas que, hoje, são construídas em minutos e parecem cada vez mais reais.
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