A floresta amazônica cresce sobre solos pobres. Boa parte da fertilidade está na vegetação e na camada de folhas em decomposição, não no perfil do solo, o que explica por que a derrubada seguida de plantio convencional costuma render duas ou três safras antes do declínio. Alfredo Moreira Filho trabalhou nesse cenário e recebeu do CREA/AM o título de Engenheiro do Ano.
Reconhecimentos assim dizem menos sobre uma pessoa e mais sobre o problema que ela enfrentava. Fazer agronomia no Amazonas nunca foi aplicar um manual pronto: foi refazer o manual em campo, com clima, solo, logística e calendário diferentes de tudo o que se ensinava nas escolas do Sudeste e do Sul.
Por que o pacote tecnológico do Sul não se transplanta?
Os solos de terra firme da região são, em maioria, latossolos e argissolos ácidos, com alta saturação por alumínio e baixa reserva de nutrientes. A chuva abundante, que passa de 2 mil milímetros anuais em boa parte do estado, agrava o problema ao lixiviar o que se aplica. Corrigir exige calcário e fertilizante, insumos que chegam por barco e custam muito mais caro do que no Centro-Sul.
Esse conjunto muda a estratégia técnica. Em vez de forçar culturas anuais exigentes, a resposta que se mostrou mais consistente passou por espécies perenes adaptadas, cobertura permanente do solo e reciclagem de matéria orgânica. É uma agronomia que trabalha com o sistema natural em vez de tentar substituí-lo, e que exige do profissional paciência com resultados que demoram.
Várzea e terra firme funcionam como dois estados diferentes
Na beira dos rios, a lógica se inverte. A várzea recebe sedimento novo a cada cheia e tem fertilidade natural alta, mas o calendário não é do agricultor: é do rio. Em Manaus, o nível varia cerca de dez metros entre a cheia e a seca, e a agricultura de vazante ocupa a faixa exposta durante poucos meses do ano.
Quem presta assistência técnica precisa dominar os dois sistemas e não confundir um com o outro. Culturas de ciclo curto, como hortaliças e milho, encaixam-se na vazante; perenes, como guaraná, cupuaçu e citros, exigem terra firme. Errar essa leitura significa perder a lavoura inteira na primeira enchente, sem chance de correção.
Distância é uma variável agronômica
Em um estado com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e poucas rodovias, a visita técnica é medida em dias de viagem, não em horas. Isso limita a frequência do acompanhamento e obriga o agrônomo a deixar o produtor apto a decidir sozinho entre uma visita e outra, com critérios simples e verificáveis a olho nu.
A mesma restrição molda a escolha do que produzir. Cultura perecível só faz sentido perto do consumidor, o que justificou iniciativas como o Distrito Agropecuário da Zona Franca de Manaus, criado para abastecer a capital com produção local. Alfredo Moreira trabalhou como engenheiro agrônomo em Itacoatiara e em Manaus, área onde essa equação de distância define o que vale a pena plantar. Fora desse raio, o que compensa é o que suporta viagem longa: grão, fibra, produto seco ou beneficiado.
A agronomia amazônica devolveu ao resto do país?
Muita coisa que hoje se discute como agricultura moderna nasceu de tentativa e erro nessas condições. Sistemas agroflorestais, consórcios de espécies com ciclos diferentes, uso de resíduo orgânico e manejo com cobertura de solo foram testados em larga escala na região antes de virarem tema de congresso no restante do Brasil.
O título de Engenheiro do Ano concedido pelo CREA/AM a Alfredo Moreira reconheceu atuação nesse contexto exigente. Vale menos como troféu e mais como registro de um período em que a agronomia praticada no Amazonas resolvia, no campo, problemas que a literatura técnica ainda não tinha organizado. Trabalho assim raramente aparece em estatística de produção, mas é ele que transforma terra difícil em atividade viável.
