Estudo aponta potencial de ganho de produtividade, mas especialistas alertam que infraestrutura, qualificação e acesso serão decisivos.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta usada por empresas de tecnologia e passou a ocupar espaço nas discussões sobre produtividade, empregos e crescimento econômico no Brasil. Um estudo divulgado nesta semana estima que a IA poderá acrescentar quase R$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto brasileiro entre 2027 e 2030, caso sua adoção avance de forma significativa. A projeção, elaborada pelo Centro de Estratégia e Regulação (Reglab) a partir de dados da PNAD Contínua do IBGE, indica um impacto acumulado equivalente a 2,77% do PIB no período. (Folha de S.Paulo)
O dado chama atenção porque coloca a inteligência artificial no centro de uma transformação que pode atingir empresas de todos os tamanhos, trabalhadores e consumidores. Mas o que significa, na prática, uma economia brasileira quase R$ 1 trilhão maior graças à IA? A resposta passa menos pela ideia de substituição total de trabalhadores e mais pela capacidade de empresas e profissionais utilizarem máquinas e sistemas inteligentes para produzir mais, reduzir tarefas repetitivas e criar novos serviços.
De onde pode vir o quase R$ 1 trilhão gerado pela inteligência artificial?
A estimativa divulgada nesta semana aponta que aproximadamente 65% do impacto econômico potencial da inteligência artificial no Brasil viria do aumento da produtividade dos trabalhadores. Os outros 35% seriam associados à adoção da tecnologia em ativos produtivos, como máquinas, equipamentos e sistemas empresariais. Na projeção, os setores de transformação, serviços diversos e comércio aparecem entre os maiores beneficiados, com impactos estimados de R$ 264 bilhões, R$ 165 bilhões e R$ 131 bilhões, respectivamente. (Folha de S.Paulo)
Isso ajuda a entender por que a IA não deve ser analisada apenas como um assunto de aplicativos de conversa ou geração de imagens. Em uma empresa, por exemplo, sistemas de inteligência artificial podem auxiliar na análise de documentos, atendimento ao consumidor, programação, previsão de demanda, marketing, controle de estoque e identificação de padrões em grandes volumes de dados. No agronegócio, a tecnologia pode apoiar decisões relacionadas a produtividade, clima, máquinas e monitoramento de lavouras. Para o consumidor, parte dessas mudanças pode aparecer de forma menos visível, por meio de serviços mais rápidos e personalizados.
A projeção, entretanto, não representa uma promessa de crescimento automático. O próprio estudo ressalta que os resultados dependem de condições como infraestrutura, conectividade, qualificação profissional e crédito. Além disso, trata-se de uma estimativa construída a partir de premissas econômicas, e não de um valor que necessariamente será incorporado ao PIB. (Folha de S.Paulo) Por isso, o número deve ser entendido como um potencial econômico, e não como dinheiro que já está garantido para o país.
O avanço da IA também ocorre em um ambiente empresarial no qual a adoção da tecnologia já está acelerando. Pesquisa da ABES em parceria com a IDC divulgada em agosto aponta que 95% das empresas brasileiras pesquisadas já utilizam inteligência artificial, enquanto 86% afirmam que pretendem ampliar investimentos em tecnologia da informação em 2026. O levantamento também identifica a governança de dados como um dos principais desafios para ampliar o uso da IA. (ABES)
O que muda para quem trabalha no Brasil?
Para o trabalhador brasileiro, a principal transformação pode acontecer na composição das tarefas realizadas durante o expediente. Sistemas de IA conseguem executar determinadas atividades repetitivas ou acelerar etapas que anteriormente exigiam muitas horas de trabalho humano. Isso não significa necessariamente que uma profissão inteira desaparecerá, mas pode alterar quais habilidades são mais valorizadas dentro dela. Um profissional administrativo, por exemplo, pode gastar menos tempo organizando documentos e mais tempo analisando informações e tomando decisões.
Esse processo já aparece nas preocupações das empresas brasileiras. Pesquisa da PwC com mais de 4.400 líderes empresariais de 95 países mostra que 33% dos CEOs brasileiros entrevistados reconhecem dificuldades para contratar os profissionais necessários à transformação tecnológica, contra 23% no cenário global. O levantamento também aponta que 36% enfrentam dificuldades de retenção que afetam o desempenho operacional. (PwC)
A combinação entre falta de profissionais e avanço da automação cria uma situação curiosa: ao mesmo tempo em que determinadas tarefas podem ser automatizadas, cresce a procura por pessoas capazes de trabalhar com tecnologia. Programação, análise de dados, segurança digital, engenharia de IA, gestão de projetos tecnológicos e conhecimento sobre ferramentas generativas podem ganhar importância. Entretanto, a transformação não ficará restrita a profissionais tradicionalmente classificados como trabalhadores de tecnologia, pois vendedores, contadores, professores, profissionais de saúde, advogados e trabalhadores do agronegócio também precisarão aprender a utilizar novas ferramentas.
Os números recentes do mercado de trabalho ajudam a colocar essa mudança em perspectiva. Dados da RAIS Mensal divulgados pelo Ministério do Trabalho mostram que o Brasil chegou a 62,89 milhões de vínculos formais em junho de 2026 e acumulou 2,46 milhões de novos vínculos formais somente neste ano. (Agência Gov) A expansão do emprego não elimina os efeitos da automação, mas mostra que a entrada de novas tecnologias ocorre dentro de um mercado muito maior e mais diversificado do que o setor de software.
Para o brasileiro comum, portanto, aprender a utilizar IA pode ser tão importante quanto aprender uma nova ferramenta de trabalho. Saber formular perguntas, revisar respostas, verificar informações, proteger dados confidenciais e integrar sistemas inteligentes à rotina pode se transformar em uma competência profissional básica. A diferença entre ganhar produtividade com IA e apenas utilizar a tecnologia de maneira superficial estará cada vez mais relacionada à capacidade de entender seus limites.
Por que conectividade e qualificação serão decisivas para o Brasil?
O potencial econômico da IA também expõe um problema: os benefícios não serão distribuídos automaticamente entre regiões, empresas e trabalhadores. O governo federal mantém uma estrutura de serviços digitais que já reúne 5.179 serviços no GOV.BR, 3.200 sistemas integrados à Conta GOV.BR e 175 milhões de contas ativas, segundo dados atualizados até maio de 2026. (Serviços e Informações do Brasil) Essa infraestrutura mostra o tamanho que a digitalização já alcançou no país, mas também reforça a necessidade de ampliar acesso, segurança e capacidade de uso.
A conectividade é especialmente importante porque uma inteligência artificial cada vez mais integrada a serviços públicos, empresas e escolas depende de internet estável e dispositivos adequados. Sem infraestrutura, uma pequena empresa pode ter dificuldade para adotar sistemas avançados, enquanto trabalhadores sem formação digital podem ficar limitados às funções menos qualificadas. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas disponibilizar ferramentas de IA, mas criar condições para que elas sejam usadas de maneira produtiva e segura.
A questão da qualificação também ganhou importância diante do ritmo de evolução dos modelos generativos. Uma pesquisa recente com executivos brasileiros indica que a escassez de talentos especializados em IA é percebida com mais intensidade no país do que na média global. (PwC) Isso significa que escolas, universidades, empresas e programas de formação profissional terão papel relevante para preparar trabalhadores que precisarão conviver com sistemas inteligentes em diferentes áreas.
Para pequenas empresas e profissionais autônomos, a transformação pode representar tanto oportunidade quanto risco. Ferramentas de IA podem reduzir o tempo necessário para produzir textos, analisar dados, automatizar atendimento ou organizar informações, mas o uso sem critérios pode gerar erros, vazamentos de dados e decisões equivocadas. A governança de dados aparece justamente como um dos principais obstáculos identificados pela pesquisa ABES/IDC para ampliar a adoção empresarial da inteligência artificial. (ABES)
O Brasil também precisa considerar que a IA será aplicada de maneiras diferentes conforme a realidade econômica de cada região. Em centros financeiros, a tecnologia pode avançar rapidamente em bancos e empresas de serviços; em regiões agrícolas, pode ganhar espaço em máquinas, logística, monitoramento e análise de produção. A oportunidade está em transformar essa diversidade em vantagem competitiva, permitindo que a inteligência artificial seja adaptada às necessidades de diferentes setores e territórios.
A projeção de quase R$ 1 trilhão adicional ao PIB brasileiro até 2030 coloca a inteligência artificial como uma possível força relevante de crescimento econômico, mas o resultado dependerá das escolhas feitas nos próximos anos. Empresas precisarão investir não apenas em softwares, mas também em segurança, dados e treinamento. Trabalhadores terão de atualizar competências continuamente, enquanto governos precisarão ampliar infraestrutura e acesso. Para o brasileiro, a principal mudança talvez seja perceber que a IA não pertence mais a um futuro distante: ela já está entrando no trabalho, nos serviços e na economia, e saber utilizá-la poderá ser uma das habilidades mais importantes da próxima década.
