Como explica Taiza Tosatt Eleoterio, diante de perguntas incômodas feitas por parentes próximos, é comum que uma mulher em relacionamento abusivo minimize o que está vivendo ou até defenda o comportamento do parceiro. Esse movimento costuma confundir familiares preocupados, que esperavam encontrar abertura para ajudar e encontram, em vez disso, resistência e justificativas. Embora pareça contraditório à primeira vista, esse comportamento tem explicações psíquicas bastante consistentes.
O papel da vergonha na proteção do agressor
Um dos motivos mais frequentes por trás dessa proteção é a vergonha: admitir, diante da própria família, que a relação escolhida se tornou motivo de sofrimento pode ser sentido como um fracasso pessoal, mesmo quando a responsabilidade pelo abuso nunca foi da mulher. Esse sentimento costuma ser ainda mais intenso quando a relação foi, em algum momento, apresentada à família com orgulho, o que torna admitir o abuso uma espécie de desmentido público de uma escolha antes celebrada.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que essa vergonha costuma se intensificar quando a família já havia manifestado dúvidas sobre o relacionamento desde o início, já que admitir o problema, nesses casos, também significa admitir que os alertas anteriores estavam certos, algo que pode ser emocionalmente custoso de reconhecer.
Por que o medo de retaliação também influencia esse comportamento?
Além da vergonha, o medo concreto de retaliação por parte do parceiro é um fator determinante. Muitas mulheres já vivenciaram ameaças, explícitas ou veladas, sobre o que aconteceria caso a situação fosse exposta para a família, o que reforça a escolha de minimizar ou negar publicamente o que está sendo vivido em particular. Essas ameaças nem sempre são diretas; muitas vezes se manifestam como insinuações sutis, difíceis de nomear claramente para quem está de fora da relação.
Como pondera Taiza Tosatt Eleoterio, esse medo não é infundado nem exagerado: o período em que uma mulher decide romper com um relacionamento abusivo, ou mesmo apenas expor a situação, costuma ser um dos momentos de maior risco dentro do próprio ciclo da violência.
O papel da dependência emocional nessa proteção
A dependência emocional construída ao longo do relacionamento também contribui para esse padrão. Defender o parceiro diante da família pode ser, inconscientemente, uma forma de preservar o vínculo, mesmo quando esse vínculo já está causando sofrimento evidente e reconhecido pela própria mulher em outros momentos. Romper publicamente com essa defesa significaria, para a mulher, enfrentar de vez uma realidade que ela ainda não se sente pronta para sustentar sozinha.
Taiza Tosatt Eleoterio avalia que esse mecanismo de proteção costuma ser mais forte logo depois de episódios de reconciliação, quando a esperança de que “dessa vez vai ser diferente” está momentaneamente reforçada pela fase de maior afeto dentro do ciclo abusivo.
Como a reação da família pode facilitar ou dificultar esse processo?
A forma como a família reage a essas primeiras tentativas de defesa do parceiro tem um peso importante no que acontece depois. Cobranças diretas, ultimatos ou julgamentos duros tendem a reforçar a postura defensiva da mulher, enquanto uma escuta paciente, sem insistência, costuma preservar o vínculo de confiança necessário para conversas futuras. Cada reação da família, mesmo as mais sutis, é registrada pela mulher como um sinal de que pode, ou não pode, voltar a falar sobre o assunto mais adiante.
Taiza Tosatt Eleoterio considera que manter a porta aberta, mesmo diante de uma defesa que soa incoerente com o que a família já percebeu, costuma ser mais eficaz a longo prazo do que qualquer tentativa de convencimento imediato.
Por que insistir demais pode ter o efeito contrário?
Insistir repetidamente para que a mulher reconheça o abuso, especialmente de forma incisiva, pode fazer com que ela se afaste ainda mais da família, associando essas conversas a um ambiente de julgamento em vez de acolhimento, o que a leva a compartilhar cada vez menos sobre o que realmente está vivendo. Com o tempo, esse afastamento pode se tornar mais prejudicial do que o próprio silêncio inicial, já que reduz ainda mais a rede de apoio disponível para ela.
Reconhecer que esse processo tem um ritmo próprio, mesmo quando esse ritmo é frustrante para quem observa de fora, ajuda a família a sustentar uma presença constante sem se desgastar em confrontos que raramente produzem o efeito desejado.
O que muda quando a família compreende esse mecanismo?
Compreender por que a proteção ao agressor acontece, em vez de interpretá-la apenas como teimosia ou ingenuidade, permite que a família ofereça um tipo de apoio mais eficaz: presente, sem julgamento, e disponível para o momento em que a mulher estiver, de fato, pronta para buscar ajuda.
Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que esse entendimento não torna o processo mais rápido, mas torna o apoio da família mais sustentável ao longo do tempo, o que costuma fazer toda a diferença quando a mulher finalmente decide romper esse relacionamento abusivo.
